quarta-feira, 16 de março de 2011

Nosso lar não é aqui

"Nosso lar não é aqui". Ouvimos isso constantemente no meio cristão. O sentido é óbvio: temos uma esperança para além desse mundo. Ao mesmo tempo, essa espécie de jargão religioso acaba confundindo. Não me refiro à reação de não-cristãos (alguém diria, em tom de gracejo, que os seguidores de Jesus são ETs assumidos!); a confusão maior parece se dar com os próprios adeptos da cruz.

Embora o mundo se apresente manchado pelo mal, e tragédias apontem para um fim próximo do mundo físico como o conhecemos, temos que ter cautela. Ao assumir que não pertencemos definitivamente a esse mundo, não podemos nos olvidar que temporariamente estamos no mundo. E enquanto estivermos, temos de viver de forma qualitativamente superior em comparação com aqueles que se pautam por outras perspectivas, quer religiosas, quer filosóficas.

A recusa em pertencer a esse mundo jamais deve expressar certo nihilismo sutil, em virtude de decepções pessoais ou de perdas, em qualquer âmbito; afinal, o que nos move a ser cristãos? Apenas o fato de não termos um emprego melhor, uma casa maior ou um carro mais novo?

São coisas como as citadas que provocam o sentimento de não estar à vontade no mundo? É uma inferiorização de nossa pessoa ou valores que nos força a resistir à ideia de viver apenas a vida presente? Se for o caso, Nietzsche estaria correto ao atrelar aos seguidores de Cristo a chamada "moral de escravo" - uma frustração que forçaria um nivelamento por baixo da Humanidade.

Acredito que a razão maior para desejar outro lar é a identificação com Cristo: "Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim." (Jo 15:18). A perseguição contra os membros da família de Deus se explica como sendo um reflexo da perseguição contra o próprio Jesus (v. 20); no entanto, felizes os que se identificassem com Jesus e os profetas do passado, suportando idêntica oposição (Mt 5:10-12).

No aspecto positivo, a identificação com Jesus nos leva a buscar a herança prometida, e os que desejam a herança são identificados por Deus como seus filhos (Hb 11:13-16). Logo, fecha-se um ciclo: nós nos identificamos com Deus, desejamos a herança (a pátria superior) e Deus, em Pessoa, se identifica conosco.

Defendo que essa perspectiva, longe de levar à alienação ou ufanismo, constitui uma vigorosa visão, capaz de nortear a atuação de cristãos no mundo, de forma distintiva - seja nas Artes Plásticas, na Literatura, nas Ciências, na Medicina, na Música, na Política, etc. Mesmo que nosso lar não seja aqui, isso não implica em recusa para viver de forma digna a vida atual, até como forma de aliviar o sofrimento alheio, melhorar os serviços sociais, elevar os padrões morais, representando por meio de todas essas maneiras a vontade divina, enquanto nos preparamos para a existência futura - a qual será definitiva! (Outra Leitura)

Pr. Douglas Reis

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